Por que cidades inteligentes apoiam negócios de impacto social?

A ideia de negócios de impacto social ganhou popularidade com o economista e banqueiro bengali Muhammad Yunus, que ganhou o Nobel da Paz em 2006 e criou, em 1983, um banco especializado em microcrédito em Bangladesh. O objetivo era oferecer pequenos empréstimos a pessoas em situação de pobreza, possibilitando a ruptura de um ciclo de extrema pobreza e de exploração no qual estavam inseridas muitas famílias do país[1].

São muitos os casos positivos que passaram a servir de exemplo para esse tipo de negócio. Cidades ao redor do mundo têm sido palco de iniciativas que inovam para resolver problemas de seus habitantes. A empresa sul-africana Silulo[2] ilustra bem esse tipo de iniciativa: obtém sua sustentabilidade financeira por meio do desenvolvimento de soluções tecnológicas e oferecimento de cursos na área de tecnologia da informação e comunicação para jovens. A empresa também gera inclusão produtiva ao conectar, por meio de seu canal de empregos, pessoas e oportunidades de emprego no mercado de trabalho tecnológico. Já a Weird Enough Productions[3] é uma empresa de produções midiáticas que cria narrativas e imagens positivas de homens negros e outros grupos estigmatizados através dos produtos culturais que comercializa, como curtas e comic books. Todas essas empresas oferecem produtos e soluções que buscam resolver um problema social – exclusão produtiva e preconceito racial –  com o objetivo de gerar impacto social positivo[4].

As histórias de impacto descritas acima permitem compreender quais são as características principais dos negócios de impacto social: conciliar um modelo de negócio sustentável, capaz de gerar receitas próprias, com a missão de gerar impacto social ou ambiental positivo na sociedade. Como o objetivo principal ou exclusivo não é gerar lucro, os negócios de impacto social se diferenciam dos negócios privados como os conhecemos. Por outro lado, eles também não se encaixam na definição clássica de terceiro setor (embora possam assumir a forma jurídica de organizações não governamentais), já que utilizam mecanismos de mercado para garantir a própria sustentabilidade econômica. Por conta desse caráter híbrido, o setor dos negócios de impacto social vem sendo chamado de setor 2.5 (dois e meio). A importância deste setor fica ainda mais evidente neste contexto de pandemia.

Os negócios de impacto social também medem periodicamente o impacto que geram e levam em conta os interesses de investidores, clientes e a comunidade[5]. Essas duas características estão conectadas à importância da transparência e do contínuo diálogo com todas as pessoas que são afetadas pelo negócio, garantindo que haja responsabilidade social na sua condução.

A consolidação do conceito de negócios de impacto social é um passo importante para estimular o desenvolvimento de iniciativas deste tipo, já que auxilia no processo de criação de um ambiente favorável. Outro passo fundamental, já dado por diversos países, é a criação de políticas estatais para fomentar o crescimento desse ecossistema. Portugal, por exemplo, criou a iniciativa “Portugal Inovação Social”, que  “visa promover a inovação social e dinamizar o mercado de investimento social em Portugal”[6]. Aqui no Brasil, em âmbito federal, temos a Estratégia Nacional de Investimentos e Negócios de Impacto (ENIMPACTO).

Mas qual é a conexão entre negócios sociais e a realidade municipal? Cidades mais inteligentes e humanas estimulam o desenvolvimento de negócios de impacto social nos seus territórios por avaliar que eles colaboram com a concretização objetivos de interesse público, essencialmente o de tornar o espaço urbano (ou rural) menos desigual e mais inclusivo e sustentável. Os governos municipais podem assumir um papel estratégico no desenvolvimento econômico em nível local, especialmente no que se refere à potencialização e ao apoio à criatividade, à visão empreendedora e aos propósitos de impacto social que já existem nas periferias das cidades[7]. Esse fomento também contribui com a redução de desigualdades e com a inclusão produtiva e econômica.

Não por acaso, o fomento aos negócios de impacto social se alinha a uma série de objetivos de desenvolvimento sustentável da Organização das Nações Unidas, como, por exemplo, promover o crescimento econômico sustentado, inclusivo e sustentável; fomentar a inovação; reduzir a desigualdade e tornar as cidades e os assentamentos humanos inclusivos, seguros, resilientes e sustentáveis. É fácil perceber que os negócios de impacto social podem nos auxiliar a concretizar esses objetivos de desenvolvimento que pressupõem não deixar ninguém para trás.

A atual crise nos mostra que, mais do que nunca, precisamos construir, para nossas cidades, futuros inteligentes, inclusivos e humanos. Por isso, convido todas e todos a contribuir com a consulta pública sobre projeto de lei que tem como objetivo apoiar negócios de impacto social no Município e que apresentarei à Câmara Municipal de São Paulo em breve. A consulta ficará aberta até 29 de maio de 2020 neste link. Participe e ajude a tornar São Paulo uma cidade mais inteligente e humana.

Artigo publicada em: 12 de maio de 2020

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